PRÍNCIPE DE ASTÚRIAS
Apenas 10 por cento dos acidentes marítimos não têm
explicação. O naufrágio do paquete espanhol Príncipe de
Astúrias, no arquipélago de Ilhabela, há 90 anos, inclui-se neles. Foi a maior tragédia marítima registrada no Brasil. A nave foi considerada o “Titanic” brasileiro numa alusão ao vapor britânico que afundou 2 anos antes no Atlântico Norte. Aliás, comparações entre eles existem de sobra. A começar por terem sido construídos no mesmo estaleiro, na Escócia. O Titanic foi a pique por causa da imprudência do comandante.
E, muito provavelmente, o Astúrias, também.
A última viagem - Era a sexta ida do Príncipe de Astúrias para a América Latina. Aquela viagem fatídica iniciou-se em Barcelona, no dia 17 de fevereiro, e segundo um oficial de bordo, “sempre em excelentes condições”. Fez escalas em Valência, Málaga e Cádiz. Deixou o território espanhol e depois de passar pelo estreito de Gibraltar, alcançou o Oceano Atlântico parando em Las Palmas, nas Ilhas Canárias. De lá, dirigiu-se a Santos, sua única parada no Brasil, onde desembarcariam 89 passageiros e 265 toneladas de carga. Era esperado às 9 horas da manhã de domingo, em 5 de março de 1916, com um dia de atraso, em razão do excesso de carga (1,6 mil toneladas a mais do que a sua capacidade). A bordo estavam registradas, oficialmente , 654 pessoas, das quais 193 tripulantes, embora existam versões de que mais de 800 imigrantes clandestinos estavam nos porões, fugidos da Primeira Guerra Mundial. Mas, ao se aproximar de Ilhabela, local tido como crítico para a navegação, chamado de “Triângulo das Bermudas do Brasil”, no passadiço, o comandante José Lotina e seus comandados, começaram a perceber sinais de que o transatlântico estava em sérias dificuldades. Dentro da embarcação, apesar do desconforto criado pela agitação das ondas, foliões brincavam animadamente no baile de carnaval regado com o melhor champanhe. Eram industriais já radicados na América do Sul, que voltavam de passeios ou negócios na Europa, nobres espanhóis e banqueiros judeus, enfim, a fina flor da sociedade espanhola que decidira mudar com suas riquezas em ouro e jóias para países livres dos conflitos da Primeira Guerra, como a Argentina. Altas horas da madrugada recolheram-se aos seus camarotes de primeira classe, um nível acima do convés, com a expectativa de que o próximo baile seria em terra firme, devidamente ancorados no porto de Santos. Segundo a versão oficial, chovia forte e quem se arriscou a ver o que se passava do lado de fora percebeu que a cerração baixava a visibilidade quase a zero. Soprava um vento leste. O comandante José
Lotina, que fazia “viagens aceleradas para a América do Sul” há mais de 8 anos, e era um “profundo conhecedor de seu metiér”, ordenou a diminuição da marcha, mas viu-se diante do pior quando a luz de um raio iluminou o mar, e revelou a proximidade dos rochedos da Ponta da Pirabura.

“É terra?”, perguntou, apavorado, ao segundo piloto Rufino y Ouzain Urtiaga. Era. “Na marca de 5 quartas por estibordo”, como esse contaria à polícia marítima de Santos ao depor sobre o acidente. Lotina lançou-se, ávido, ao telégrafo e deu a última mensagem para a casa de máquinas: “Toda força à ré”, ordenando também “todo o leme a boreste”, mas não havia mais tempo para o cumprimento das ordens.
O choque foi tremendo. O casco roçou algo fortemente, ouviram-se grandes estalos. O navio batera na única laje submersa no
local, a poucos metros da terra, abrindo um enorme rasgo de 44 metros no lado direito do casco. Ainda segundo Urtiaga, imediatamente toda a tripulação foi despertada, na tentativa de iniciar o serviço de salvamento com lanchas e escaleres.
O imediato do navio correu para a sala do telégrafo, aonde tentou transmitir pedidos de socorro por 6 vezes, sem sucesso pois, neste momento, acabou a energia elétrica com a explosão das duas caldeiras. Tripulantes ainda tentaram produzir luz com o gerador de emergência do convés, mas foram jogados ao mar. O médico de bordo, Francisco Zapata, ainda ouviu do comandante Lotina que estava tudo perdido. O Astúrias foi sugado pelo oceano indócil em menos de 5 minutos. Nesse intervalo precioso de tempo, morriam 477 pessoas. A maior parte delas, presas aos escombros do navio. Todos dormiam e, dos que acordaram, a maioria sequer teve tempo de abrir a cabine. A quase totalidade dos imigrantes sequer conseguiu chegar ao convés. Enquanto o navio era literalmente engolido para uma profundidade de 40 metros, muitos passageiros que subiram ao convés foram levados pelas ondas e morreram ao serem lançados violentamente contra as pedras. Outros queimaram na água fervente que se espalhou com a explosão das caldeiras. Salvaram-se aqueles que se afastaram para o alto mar, agarrados em algum objeto que despencou do navio,como os fardos de cortiça que estavam na parte superior dos porões, portas e outros pedaços de madeira que flutuaram.
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